- FuTimão
- A Fiel e o Gigante: Como a paixão move montanhas no futebol
A Fiel e o Gigante: Como a paixão move montanhas no futebol
Por Redação FuTimão em 29/11/2024 05:21
A Quitação da Neo Química Arena e o Legado da Fiel
Recentemente, a Gaviões da Fiel, a principal torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista, lançou uma iniciativa ousada: um projeto para quitar a dívida da Neo Química Arena, utilizando uma plataforma de pagamentos instantâneos (Pix) para que os torcedores contribuam financeiramente com o clube. A quantia devedora, um peso considerável de R$ 710 milhões para a Caixa Econômica Federal, acende o debate sobre a força da paixão corintiana e a sua capacidade de mobilização para além do gramado.
Este movimento, porém, não é inédito na história do Timão. A dedicação incondicional da torcida corintiana a seu clube já se manifestou em diversas ocasiões, demonstrando uma ligação que transcende os resultados em campo.
A saga da Neo Química Arena nos lembra outras iniciativas grandiosas, que marcaram a história do futebol brasileiro e mostram a força da torcida em momentos de desafio.
O "Disque-Marcelinho": Um Leilão Inusitado
Retrocedamos ao ano de 1998. Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians , estava de volta ao clube após uma breve e frustrante passagem pelo Valencia, da Espanha. Sua contratação, contudo, se deu de forma peculiar, longe dos métodos tradicionais de negociação entre clubes.
A Federação Paulista de Futebol (FPF), na época presidida por Eduardo José Farah, decidiu financiar a contratação do meia, desembolsando US$ 7 milhões para resgatá-lo da Espanha. A solução encontrada foi um leilão inusitado: o "Disque-Marcelinho".
A FPF disponibilizou um número 0900 para cada um dos quatro grandes clubes de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo). A torcida de cada clube deveria ligar para o número correspondente, e o clube com mais ligações ficaria com o jogador. A FPF se comprometeu a arcar com os salários de Marcelinho nos primeiros seis meses.
A Gazeta Esportiva, em 14 de janeiro de 1998, divulgou: "Cada ligação custará R$ 3,00 e cinco automóveis serão sorteados entre os participantes, sendo um para cada torcida e o quinto automóvel entre os torcedores que votaram no time vencedor".
"O custo operacional gira em torno de 48,47% do total arrecadado. O que sobrar será da Federação até atingir os US$ 7 milhões; o restante será dividido entre os quatro grandes clubes" disse Farah ao anunciar o Disque-Marcelinho.
A campanha gerou uma verdadeira batalha entre as torcidas. Inicialmente, o Corinthians liderou a votação, mas a disputa se intensificou com a entrada em cena do São Paulo. As declarações de líderes de torcidas organizadas revelam a polarização da situação:
"Não queremos ele. Se algum associado pede a opinião da torcida, dizemos para ele ligar a favor do Santos, tirando ele do Corinthians. A torcida do Palmeiras não aceita o Marcelinho, porque a identidade dele é corintiana", disse Valdecir Marins da Silva, vice-presidente da TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras), ao jornal A Gazeta Esportiva.
"Somos contra o Marcelinho no São Paulo", revelou Rodrigo Brandamento, vice-presidente da Torcida Independente. "O disque 900 é uma brincadeira. Eu não vou ligar e sugiro que ninguém ligue", concordou Cosme Damião Freitas, representante da Torcida Jovem do Santos.
O Triunfo Corintiano e as Consequências do "Disque-Marcelinho"
Após quase duas semanas de intensa disputa, o Corinthians sagrou-se vencedor, com 62,5% das ligações. Marcelinho retornou ao clube, impulsionado pela paixão inabalável de sua torcida.
"O meu primeiro gol não importa se vai ser de placa ou contra quem. O certo é que vou correr para a Fiel", disse o ídolo em seu primeiro pronunciamento público depois do anúncio, no dia 27 de janeiro. Carioca foi apresentado junto a Gamarra e Vampeta, que também teriam passagens de sucesso vestindo a camisa alvinegra.
Embora a volta de Marcelinho tenha sido triunfal para o Corinthians , o resultado financeiro para a FPF ficou aquém das expectativas. A entidade esperava milhões de ligações e uma arrecadação considerável, mas o número de ligações foi muito inferior ao esperado. A arrecadação final ficou longe do projetado, mostrando os riscos de iniciativas inovadoras, mesmo com o apelo popular.
A história do "Disque-Marcelinho" ilustra a força da torcida corintiana, mas também serve como um estudo de caso sobre os desafios da gestão e arrecadação de recursos no futebol.
A Vaquinha por Wesley: Um Caso de Fracasso
Em contraste com o sucesso corintiano, a história da tentativa de contratação do volante Wesley pelo Palmeiras em 2012 ilustra os riscos de campanhas de arrecadação de fundos baseadas em contribuições de torcedores. A diretoria palmeirense lançou uma vaquinha para financiar a contratação, mas a meta de R$ 21 milhões ficou muito distante da realidade, com apenas R$ 700 mil arrecadados. O dinheiro foi devolvido aos torcedores.
Apesar do fracasso da campanha, o Palmeiras conseguiu contratar Wesley com a ajuda de um fiador, Antenor Angeloni. No entanto, este ato gerou um endividamento que só foi quitado em 2022, na gestão de Leila Pereira, demonstrando as consequências de decisões financeiras precipitadas.
A passagem de Wesley pelo Palmeiras, apesar do investimento, não deixou marcas positivas na memória dos torcedores, o que reforça a necessidade de planejamento estratégico e gestão financeira responsável.
A trajetória de Wesley no Verdão, marcada pela falta de sucesso e pelo alto custo, serve como um alerta para a necessidade de planejamento estratégico e gestão financeira responsável nos clubes de futebol.
Em suma, as histórias do "Disque-Marcelinho" e da vaquinha por Wesley demonstram a força da paixão dos torcedores e a sua disposição em contribuir para os seus clubes, mas também revelam os desafios e os riscos associados a iniciativas de arrecadação de fundos, independentemente do tamanho ou força da torcida.
Curtiu esse post?
Participe e suba no rank de membros